Hoje prefiro o silêncio

março 8, 2019

O mundo parece ser mesmo dos que falam, daqueles que se expressam e emitem sons. Nunca ouvi dizer que alguém ficou famoso por ser um bom ouvinte ou porque soube exercer a arte do silêncio. Mas não me refiro ao silêncio desafiador do tipo que existe para a vingança, muito menos do silêncio ignorante. Falo daquele silêncio que é construído ao longo do tempo por se entender que algumas respostas não precisam ser dadas e que as palavras nem sempre representam a verdade.

É aquela fase da vida em que você compreende que é hora de conter impulsos, subtrair palavras e até mesmo abdicar de razões para ganhar lá na frente o tesouro da paz. Por isso, a essa altura da vida, tenho que optar pelo silêncio do meu eu, para ver se, em meio ao barulho da multidão, ouço a voz da minha alma. Não pense que também já não fui iludido pela arte do falar, hipnotizado com o malabarismo da retórica e empolgado com a eloquência do discurso. Agora confesso que…

Hoje prefiro o silêncio, porque falar somente cansa, estressa e dificilmente convence.

Hoje prefiro o silêncio, porque todos a minha volta já falam, então resolvi buscar o ponto de equilíbrio.

Hoje prefiro o silencio, por que vi que alguns resultados não vêm pelo falar, mas são conquistados pela habilidade de ouvir e solidificados pela decisão de refletir.

Hoje prefiro o silêncio, porque vejo que o barulho da prepotência e o batuque do orgulho só produzem vaidades, sons que não trazem proveito algum.

Hoje prefiro o silêncio, porque vi muitas palavras separando pessoas e testemunhei gritos aterrorizando inocentes.

hoje prefiro o silêncio, porque não suporto mais os decibéis irritantes dos que sempre dizem ter razão, mas que não conseguem mostrar sem palavras suas convicções.

Hoje prefiro o silêncio a ter de apagar as chamas das palavras destruidoras, a desfazer os estragos do meu ego.

Hoje prefiro o silêncio, porque aprendizado eficaz se dá quando alguém decide escutar aquele que fala; de modo que, sem silêncio, não se pode adquirir o conhecimento nem a compreensão necessária para a vida.

Hoje prefiro o silêncio, não porque acredite que todo falar seja um erro, mas porque creio que onde há excesso de palavras e ausência de silêncio também há escassez de equilíbrio, crise de inteligência e consequentemente patologias instaladas.

Hoje prefiro o silêncio, porque percebi que a sabedoria sempre repousou no colo daqueles que se assentaram na cadeira de uma faculdade ou aos pés de sábios, com ou sem títulos, e simplesmente começaram a ouvir.

Hoje prefiro o silêncio, porque as palavras podem nos fazer heróis, mas a quietude pode ser uma espécie de recepção à sabedoria e uma saudação à felicidade.

Hoje prefiro o silêncio, porque passei a vida aprendendo a falar, desperdicei tempo me defendendo de ataques, queimei neurônios expondo ideias, além de ser treinado somente para exibir o pouco que sabia. Mas, em relação ao silêncio, minha experiência está apenas começando.

O silêncio comportamental é capacidade que alguém desenvolve de conter-se diante dos seus próprios impulsos, a força interior de não ceder aos estímulos externos do ego que apenas pensa no exibicionismo. É descobrir que, além do mundo exterior, há um universo interno e próprio que precisa ser cuidado, escutado, observado e tratado.

As escrituras já nos advertiram quanto ao silêncio: há tempo para falar e tempo para deixar de falar.

E o tempo que escolho agora é mesmo o de ficar em silêncio.

 

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