Quando o beijo perde o sabor

junho 2, 2019

Por Gilaelson

O beijo é uma prática exercida em quase todas as culturas. Com ele, tocamos pessoas como transmissores e, ao mesmo tempo, receptores dos mais diversos sentimentos que envolvem este ato de afeto nas relações humanas. Às vezes um beijo pode significar muito; outras, absolutamente nada mais além do toque. Algumas vezes também um beijo pode dizer coisas que as palavras ocultaram por muito tempo.

Em uma interpretação comum do seu significado, podemos dizer que beijo é o ato ou efeito de tocar. E o que poucos falam é que o beijo pode ser um bom termômetro para medir uma relação amorosa. Não sei se você já pensou, mas um beijo entre casais não é somente um toque, ele emite sensações diversas, como prazer, dor, alegria, tristeza, torcida por quero mais ou tomara que acabe logo, verdades e hipocrisias; enfim, o beijo também pode dizer muito sobre como anda a saúde de sua relação.

Se abríssemos esse espaço para depoimentos, iríamos ouvir pessoas dizendo: nós já nos beijamos mais; hoje, muito pouco; outros iriam dizer que não veem mais sentido no beijo, porque aconteceram coisas na caminhada. E, por fim, há aqueles que diriam que o beijo do outro perdeu o sabor e que, por isso, o recusam ou não o buscam, deixando clara a existência de crises, feridas e frustrações não resolvidas ou nunca antes comunicadas.

Quem sabe o beijo de sabor inigualável de antes não lhe provoque mais apetite emocional e por isso, há algum tempo, você decidiu não respirar mais aquele hálito que outrora lhe trazia tantas informações úteis. Talvez você tenha decidido não trocar mais as salivas da intimidade porque a crueldade do eu, ou a fraqueza da confiança, já não lhe inspiram mais a seguir com essa proximidade tão sonhada.

Não gosto de me iludir e nem de manter outros nessa condição. Então, penso que o melhor caminho é não negar realidades. Entendo que, em muitas relações, o beijo realmente perdeu o sabor, isso é fato! Porém a questão não é se isso vai acontecer

ou não, e sim como enfrentaremos tal adversidade. Nós já ouvimos dizer bastante que a vida tem espinhos, decepções, frustrações, erros, etc. E, mesmo assim, continuamos a querer passar por tudo isso ilesos, sem admitirmos que seremos atingidos. O que é um absurdo!

Todos, inevitavelmente, somos vítimas de acidentes e feridas na vida. Muitas delas feitas por outros e por vezes por nós mesmos. E, como nem sempre dá para escaparmos desses grilhões, recomendo que entremos com a medida de recuperação. E, para isso, usaremos a metáfora da culinária.

Por exemplo: quem cozinha sabe que um feijão depois de cozido e deixado na geladeira, após dois ou três dias, não oferece mais o mesmo sabor de quando saiu do fogo, pronto. Mas o que fazemos? Jogamos o alimento fora? Não! Porque não faz sentido, já que o colocamos na geladeira justamente para não perdê-lo. Então, usamos a tática da recuperação, inserindo tempero e refogando para que o sabor seja devolvido ao alimento.

Logo, todos nós temos a capacidade de devolver às nossas relações o sabor perdido: adicionando a confiança, ingrediente retirado, devido às decepções; trazendo de volta o sal da proteção e do sabor, abandonado pelas tristezas causadas; aplicando o corante da alegria, que descoloriu pelo desgaste do próprio estica e puxa da vida; derramando o azeite da paciência, que se enfraqueceu pela rigidez do ego. E, para acabarmos com essa relação inodora e incapaz de abrir nosso apetite emocional, podemos aplicar algumas quantidades do cheiro verde da imaginação.

Então, possivelmente, veremos como tudo ainda pode se tornar delicioso, basta voltar com o tempero que ao longo do tempo se enfraqueceu.

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